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Obama alerta Congresso dividido que ele agirá sozinho

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, prometeu nesta terça-feira evitar o dividido Congresso e tomar ele próprio medidas em prol da classe média norte-americana, em seu discurso anual do Estado da União, que ele usou para tentar reanimar o segundo mandato depois de um ano turbulento.


Falando na Câmara dos Deputados diante de parlamentares, representantes da Suprema Corte e convidados importantes, Obama declarou a sua independência do Congresso ao anunciar uma série de decisões e ordens executivas, medidas que provavelmente irão tornar ainda mais tensas as relações entre o presidente, do Partido Democrata, e os oposicionistas republicanos.


Apesar de toda a retórica, as ações de Obama foram relativamente modestas, somando-se à frustração com o ritmo da ação do Legislativo, onde os republicanos, no controle da Câmara dos Deputados, são capazes de trancar a pauta do presidente.


"Eu estou disposto a trabalhar com vocês", disse Obama aos parlamentares reunidos para o discurso anual. "Mas os Estados Unidos não param, e nem eu vou parar. Então, quando e onde eu puder dar passos sem legislação para aumentar as oportunidades para mais famílias norte-americanas, é isso que eu farei."


As ordens executivas de Obama incluem um aumento de salário para funcionários federais, a criação de uma conta poupança para ajudar milhões de norte-americanos a economizar para a aposentadoria, e planos para estabelecer um novo padrão de eficiência em consumo de combustível para caminhões.


Ele se disse forçado a agir por conta da crescente desigualdade entre ricos e pobres e pelo fato de que enquanto o mercado de ações sobe, o mesmo não ocorre com os salários.


"A desigualdade se aprofundou", disse Obama. "A mobilidade social parou. O fato é que, mesmo em meio à recuperação, norte-americanos demais estão trabalhando mais do que nunca para conseguir apenas se manter, e muitos nem trabalhando estão."


Saudações a militar ferido


No fim do discurso, Obama recebeu aplausos do público de diferentes correntes políticas quando saudou o heroísmo do sargento Cory Remsburg. O militar sobreviveu a uma explosão no Afeganistão e se recuperou a ponto de comparecer à fala, sentado perto da primeira-dama Michelle Obama.


"Como os Estados Unidos ao qual ele serve, o sargento Cory Remsburg nunca desiste", afirmou o presidente.


Num aceno aos republicanos, Obama também foi aplaudido por uma breve homenagem a John Boehner, "o filho de um gerente de bar" que virou presidente da Câmara dos Deputados e principal político de oposição no Congresso.


O objetivo político de Obama com o discurso foi criar uma narrativa para os democratas usarem na campanha para as eleições parlamentares de novembro. Os republicanos vão tentar tirar deles o controle do Senado e aumentar na maioria da Câmara dos Deputados.


O partido do governo tradicionalmente perde assentos nas eleições parlamentares no meio do mandato presidencial, mas os democratas acreditam que têm chances de reduzir potenciais danos e mesmo de obter ganhos.


Para esse fim, Obama foi aplaudido ao destacar as dificuldades econômicas das mulheres, que, segundo ele, são metade da força de trabalho norte-americana, mas ainda ganham 77 centavos para cada 1 dólar pago a um homem. O voto feminino ajudou na reeleição de Obama em 2012.


"Neste ano, vamos todos nos juntar, Congresso, Casa Branca, iniciativa privada, para dar a cada mulher a oportunidade que ela merece, porque eu acredito que se a mulher tiver sucesso, os Estados Unidos terão sucesso", afirmou.


Em sua estratégia de governo, Obama reduziu as ambições por ações legislativas abrangentes e quer focar em iniciativas de menor escala que possam diminuir a desigualdade de renda e criar mais oportunidades para a classe média.


O aumento de salário para funcionários sob contrato do governo federal para 10,10 dólares por hora, por exemplo, vai beneficiar 560 mil trabalhadores.


Essa é somente uma pequena quantidade do total de trabalhadores que teriam um aumento sob o paralisado projeto de lei para aumentar o salário mínimo nacional.


Cerca de 3,6 milhões de trabalhadores receberam o salário mínimo federal em 2012.


Temas sem solução


Obama passou boa do discurso enfatizando temas que há muito têm sido debatidos mas que continuam sem solução, como o fechamento da prisão militar de Guantánamo.


Ele renovou o apelo ao Congresso para lhe dar a autoridade necessária para acelerar a negociação de acordos internacionais de comércio, uma ação que sofre resistência dos democratas.


Sobre uma das suas maiores prioridades, a reforma imigratória, Obama pediu ao Congresso o trabalho conjunto sobre a medida. Ele moderou as críticas aos republicanos, que têm travado o projeto, no contexto dos recentes sinais sobre possíveis avanços.


Sobre assistência médica, tema que abalou o seu governo e levou muitos norte-americanos a perderem a confiança nele, Obama defendeu a lei assinada em 2010.


Ele fez um desafio aos republicanos para apresentarem uma alternativa viável em vez de repetir as tentativas fracassadas de recusar a lei.


"Eu não espero convencer os meus amigos republicanos sobre os méritos dessa lei. No entanto, eu sei que a população não está interessada em lutar de novo batalhas velhas. Dessa forma, de novo, se vocês têm planos específicos para cortar custos, ampliar a cobertura e dar mais escolha, digam para o país o que vocês fariam diferente", afirmou.


Após o discurso, os republicanos usaram a retórica de Obama sobre diminuição da desigualdade entre pobres e ricos, mas procuraram se diferenciar em relação à maneira de como fazer isso.


A deputada republicana Cathy McMorris Rodgers disse na resposta oficial do partido ao discurso de Obama que os republicanos defendem o livre mercado e confiam na capacidade das pessoas para tomarem as suas próprias decisões, sem que o governo precise tomar decisões por elas.


"O presidente fala muito sobre desigualdade de renda, mas o grande fosso que enfrentamos hoje é o de desigualdade de oportunidades", afirmou.


Com mais três anos de mandato, Obama tenta se recuperar de um ano duro, quando projetos de lei sobre imigração, controle de armas e cláusulas da reforma da assistência médica tiveram uma vida difícil no Congresso.


As pesquisas mostram um país insatisfeito. Um levantamento da NBC e do Wall Street Journal divulgado na terça-feira mostrou que 68 por cento dos norte-americanos acreditam que o país está estagnado ou pior do que no período anterior a Obama.

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