Quando se fala de um equipamento Android fica-se com a ideia de que estamos a falar de uma plataforma unificada. Mas bastará pegar num HTC, num Samsung, ou num LG para ver que todos eles recorrem a interfaces diferentes e muitas outras funcionalidades "acrescentadas" que os afastam cada vez mais daquilo que poderemos considerar os Android de referência, como surgem nos Nexus e nos equipamentos "Google Edition". O Google parece não estar muito satisfeito com toda essa variedade e tem pressionado a Samsung para que volte a adoptar um Android menos modificado.
Sabendo-se que a Samsung detêm a maior fatia do mercado Android (63% em Novembro do ano passado), está numa posição de força para lidar com o Google. Aliás, até há bem pouco tempo mantinha o desenvolvimento de uma plataforma alternativa - o Tizen - e os seus Androids chegam ao mercado com praticamente todas as funcionalidades do Google replicadas por serviços próprios: do reconhecimento de voz e comandos S Voice à sua própria App Store. De facto, não seria nada complicado para a Samsung fazer algo como a Amazon, pegando no Android open-source e criando a sua própria versão de "android", com os seus serviços em vez dos do Google. Para alguns milhões de "puristas" isso seria um suicídio.... mas para centenas de milhões de pessoas... continuaria a ser um smartphone/tablet como sempre, com uma loja de acesso a apps, e internet, e aquilo que utilizam.
Mas esse cenário apocalíptico de ver o maior fabricante de equipamentos Android separar-se do Google parece estar posto de parte, com a indicação de que conversações entre Google e Samsung terão resultado num acordo em que a Samsung abandonará muitas das alterações que faz nos seus Android e passará a dar maior destaque aos serviços oficiais do Google em vez das suas versões alternativas.
O que ganhará a Samsung em troca? Não me parece ser difícil somar 1+1 e ver que as recentes decisões do Google, tanto com a venda da Motorola à Lenovo como eventualmente com o fim da gama Nexus, estarão relacionados com este acordo.
Ou seja, a Samsung aceita deixar de "mexericar" no Android e de manter a ameaça de se aventurar numa plataforma independente; mas o Google deixa de mexericar com o hardware e de ter uma marca/modelos próprios (Motorola/Nexus). Assim... já se torna um pouco mais fácil de entender a decisão da venda da Motorola.
Para os consumidores... acho que só ficam a ganhar: com versões do Android menos modificados, poderá criar-se uma plataforma mais consistente (e onde as actualizações sejam menos demoradas), e onde as melhorias que alguns fabricantes queiram implementar possam passar a ser integradas no Android de base. Claro que isto em nada invalida que os utilizadores possam continuar a optar por launchers e modificações que transformem os seus Android naquilo que bem entenderem... mas pelo menos a experiência de base não irá causar choques a quem comprar um "Android" esperando ter um Android... e deparar-se com algo com o qual quase nem sabe trabalhar.
